Cachos! Deixa eu dizer que te amo!
- 10 de ago. de 2017
- 3 min de leitura
O Google divulgou que pela primeira vez no Brasil a busca no site por cabelos cacheados foi maior que por cabelos lisos.
Segundo estudo do Google BrandLab de São Paulo, a busca por cabelos cacheados não só ultrapassou a de lisos como cresceu 232%, e a pesquisa na web por cabelos afro foi ainda mais surpreendente, aumentando 309% nos últimos dois anos.
Essa nova tendência, de valorização do cabelo natural, já é sentida nos salões de beleza. Welisson Araújo, cabeleireiro no salão Scissô, em Juiz de Fora, comenta que houve crescimento de clientes procurando por tratamentos de transição para o cabelo natural e penteados mais adaptadas ou seu tipo natural de cabelo. “A procura por alisamentos caiu relativamente, as clientes chegam querendo algo que revele seus cabelos naturais.”

A auxiliar geral Cristina Montezano resolveu assumir seus cachos há alguns anos. Durante a adolescência ela alisava o cabelo com frequência. Quando criança sempre achou lindo cabelo liso e acredita que a partir de uns 15 anos isso se potencializou: “Acho que influenciada um pouco pelas colegas. Todas usavam o cabelo liso, e de certa forma esse tipo de cabelo sempre foi considerado mais bonito e elegante”. Cristina ainda fala que a princípio resolveu parar com o alisamento, pois seu cabelo estava ficando muito danificado. “Usava chapinha todos os dias e ainda retocava.”

Depois de procurar uma cabeleireira para recuperar a vitalidade dos fios, Cristina resolveu cortá-lo bem curto e não alisá-lo mais. Acabou gostando do resultado e mantém o cabelo natural até hoje. “Com o tempo acabei pegando gosto por ele assim.”
Já a estudante de moda da Universidade Federal de Juiz de Fora Thaís Eugênio, que possui cabelo naturalmente crespo com volume, diz que durante a infância sua mãe optou por alisar seu cabelo devido à praticidade para lidar com ele durante o dia a dia. “A princípio adorei a ideia, porque meus cabelos balançariam pela primeira vez na vida.” Mas quando se mudou de cidade para fazer faculdade, decidiu cortar os custos com salão e parar de alisar. Foi aí que ela buscou ajuda na internet, principalmente em vídeos no Youtube para ajudá-la com os cuidados com o cabelo.

Welisson Araújo destaca que esse momento é muito importante, pois na maioria das vezes o problema com os cabelos cacheados e crespos é a falta de um tratamento condizente com aquele tipo específico. “É necessário buscar produtos adequados e ter paciência nesse início da transição, pois o cabelo nem sempre estará bonito.”
Thaís comenta que ficou surpresa quando algumas pessoas a elogiaram após a mudança. Mas afirma que ainda há quem deprecie: “Terceiros agem como se a escolha de como usar meu cabelo devesse partir deles”.
A jornalista Jussara Ramos tem uma história parecida com a de Thaís, também começou com o alisamento quando criança, mas demorou mais tempo para decidir pela mudança, somente na fase adulta, depois de 31 anos. Jussara conta que além da escova utilizava muitas químicas, o que tornou sua transição um pouco mais longa. “O incentivo era muito difícil. Eu tinha receio de não me adaptar, mas estava decidida a não ser mais escrava da chapinha.” Nas redes sociais, através de grupos fechados no Facebook, que encontrou apoio e hoje tenta ajudar e incentivar outras mulheres que estão enfrentando o mesmo processo.
Welisson comenta que ainda há clientes que buscam o alisamento, mas ele sempre tenta incentivá-las a deixar os cabelos naturais: “Às vezes a pessoa ainda não encontrou a sua identidade capilar. Com o corte certo e tratamento, ela consegue encontrar a beleza que há em seu cabelo natural.”
A cabeleireira Maria Elvira Pereira ainda alerta que o alisamento não é saudável para o cabelo: “O fio alisado modifica a sua estrutura, o que não é saudável nem para o cabelo nem para a saúde, porque na maioria das vezes envolve aditivos químicos que podem até ser perigosos”.
Acima de tudo, aceitar os cabelos como eles são faz bem para a saúde da alma. Como deixou bem claro Thaís: “Não entendo como não busquei essa aceitação antes. Minha autoestima foi renovada e potencializada. É um passo importante de identificação e raiz”. Jussara concorda e ainda afirma: “Foi uma das melhores decisões que eu tomei na vida”.
Ouça abaixo o depoimento da jornalista sobre o seu processo de transição:
Comentários